Em cada canto da alma de Pessoa há um altar para um heterônimo diferente

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Uma alma múltipla e inquieta, que vive tentando destrinchar as angústias e alegrias de ser. A obra de Fernando Pessoa é dona de uma complexidade apaixonante e de três heterônimos bastante conhecidos: Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro, apesar de o poeta ter assinado textos literários com mais de 70 nomes. Se “há um altar para um deus diferente” em cada canto da alma do português, como afirmou no poema Passagem das Horas, assinado pelo alterego do escritor, ele conseguiu traduzir isso se dividindo em três para multiplicar sua obra.

Os paradoxos que oscilam entre palavras de dor e felicidade ganham novos contornos na diversa vivência poética de Pessoa. O coração desassossegado do poeta se permite fragmentar e, assim, sossegar intelectualmente diante das suas instabilidades existenciais.

“Se vocês virem o estilo do Ricardo Reis, é inconfundível, o do Alberto Caeiro e do Álvaro de Campos também. Só esses três é que têm vida própria, personalidade própria e estilo próprio. E os três são ele melhor. Para Fernando Pessoa, essa androginia  espiritual era uma maneira dele atingir a perfeição”, afirma a pesquisadora portuguesa Teresa Rita Lopes, especialista na obra do poeta.

Para criar consistência, o escritor inventou até as profissões de cada um de seus heterônimos. Eu vejo diante de mim, no espaço incolor mas real do sonho, as caras, os gestos de Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Construi-lhes as idades e as vidas”, escreveu ele em uma carta a um crítico literário, em 1935. Álvaro de Campos, por exemplo, era um engenheiro português de educação inglesa, que assinou grande parte dos grandes e mais conhecidos poemas do escritor. Entre eles, Tabacaria, que começa assim:

“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada”.

A patir daí, se desenrola uma poesia fluída, repleta de angústias existenciais e visões sobre o mundo, que beiram o niilismo.  Já em Lisbon Revisited, o escritor revela a ansiedade agoniante de sua alma instável. A poesia inicia com a seguinte estrofe:

“Nada me prende a nada.
Quero cinquenta coisas ao mesmo tempo.
Anseio com uma angústia de fome de carne
O que não sei que seja –
Definidamente pelo indefinido…
Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar”.

Já Ricardo Reis era um médico que escrevia suas obras com simetria e harmonia. Com inspiração bucólica e mais leve que Álvaro de Campos, o heterônimo escrevia sobre a necessidade de aproveitar o hoje sem pensar no amanhã. A obra de Ricardo Reis tem notável influência do pensamento greco-romano, principalmente do filósofo Epicuro, que difundia serenidade, o prazer e a felicidade.

“Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nos queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-proprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam”.

O terceiro dos heterônimos de Pessoa, Alberto Caeiro estudou apenas até o primário, fato que tornava sua poesia mais simples, direta e concreta. A sabedoria do poeta vai além de conhecimentos intelectuais, vem da objetividade, de um olhar concreto e consciente de sua percepção sobre o mundo. Ao fugir das subjetividades existentes na poesia dos dois outros heterônimos, Caeiro afirma buscar “as sensações das coisas tais como são”.

 “A espantosa realidade das cousas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada cousa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.

Basta existir para se ser completo.

Tenho escrito bastantes poemas.
Hei de escrever muitos mais. Naturalmente.

Cada poema meu diz isto,
E todos os meus poemas são diferentes,
Porque cada cousa que há é uma maneira de dizer isto.

Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada.
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.

Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.

Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo,
Nem idéia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
Porque o penso sem pensamentos
Porque o digo como as minhas palavras o dizem.

Uma vez chamaram-me poeta materialista,
E eu admirei-me, porque não julgava
Que se me pudesse chamar qualquer cousa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
O valor está ali, nos meus versos.
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade”.

Os três poetas são diferentes entre si e se complementam. Em uma alma com espaço para angústias, prazer e objetividade, Fernando Pessoa se desdobrou, somou e expressou a complexidade que é ser um poeta nato. Para dar asas à imaginação, afirmou que muitas das dores expressas na poesia eram mentira. A serviço de sua arte, exagerava, sentia profundamente:

“O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração”.

Em seu reino de sentimentos e ciente do talento que possuia, chegou a dizer que, no futuro, alguém escreveria um poema sobre ele. “E talvez só então eu comece a reinar no meu Reino”, afirmou, já sonhando em servir de inspiração para jovens poetas e escritores. Diante da riqueza da obra de Fernando Pessoa, seu legado para a poesia é eterno.